Início de Carreira
Juan Fernando Kantek Garcia Navarro
A juventude pulsa dentro de nós, nada nos satisfaz. Recém saído da escola, planos vão e vem. Tudo
reacende e incentiva o plano traçado, ainda na meninice. Lembro da minha. Passada em terras longínqua onde a vida tornava-se cada vez mais insustentável. Mas, tive a fortuna de ter uns pais que velavam pela família. Eles sim deveriam estar muito preocupados com nosso futuro. Naquela terra não havia porvir para todos nós.
Eu, na idade de menino queria ser arqueólogo. Mamãe com a bondade que lhe era peculiar ensinou-nos de um tudo. Foi talvez aí que concluí que esse deveria ser meu futuro.
Morávamos em Madrid, lembro com muita clareza os meus anos passados na capital da Espanha. Escolas, visitas aos museus, brincadeiras despreocupadas. Sabia que estaríamos bem, meus pais estavam sempre presentes, participavam de nossos pequenos probleminhas. Lembro da voz cálida de papai incentivando-nos em tudo. Haviam perdido tudo durante a Guerra Civil. Nada lhes havia restado, nem material nem emocional.
Somos oito irmãos, hoje senhores. Imagino quanta dificuldade para sustentar uma família nessa desolação que vivíamos. Se alguém nos dissesse que viveríamos no Brasil, certamente não o tomaríamos a sério. Estávamos na terra em que nascemos. Nossa vida corria, fazíamos planos, queríamos viver e trabalhar na Espanha.
Meus irmãos e eu , na inocência da meninice fazíamos planos, queríamos assentar nosso futuro, criar família, ter uma profissão, enfim, ser como todos.
Quem não deveriam estar muitos seguros eram meus pais. Eles sim, mais realistas, passavam qualquer dificuldade para realizar nossos sonhos, para que vivêssemos uma vida confortável.
De principal dificuldade eu me lembro a fome, nada havia para comer.
A vida seguia como se fosse passageira, como se eles pudessem tudo e nosso futuro estivesse assegurado.
Nós brincávamos despreocupados, estudávamos com afinco, éramos uma família como tantas outras. Papai, fã das touradas, não perdia uma, cada Domingo levava-me ás corridas. Com que felicidade o acompanhava. Essa é uma lembrança que me acompanha até hoje. Mamães levava-nos em visitas a museus, el Prado, de Historia Natural e tantos outros.
De tantas visitas, restou-me o gosto pela arte, creio sinceramente que meu primeiro gosto pela arqueologia tenha começado ali, entre peças antigas, de civilizações perdidas.
Um dia, não lembro qual, nos chamaram para uma comunicação. Que será? Impossível saber, porém naquele dia soubemos que viríamos a América. América? "Onde é isso" pensávamos, nosso mundo era Madrid. Brasil? Que país será esse? A procura levou nos aos livros de história, geografia, Atlas, a procura de informações sobre esse pais longínquo, desconhecido, misterioso.
A busca revelou-nos que era um país na América do Sul, falava-se o português, sua moeda chamava-se "Cruzeiro". Após essas descobertas, sentimo-nos mais confiantes, agora sabíamos para onde íamos. Papai viera antes, queria providenciar algum conforto para nós. Já havíamos saído da escola, vendido a casa, não tínhamos o que fazer. Morávamos perto do Prado, e para passar o tempo, fazíamos verdadeiros tours sempre por mamãe, formada na Academia San Fernando de Artes, explicava-nos cada quadro, cada objeto em exposição.
Era inverno, o frio cortante, a neve sempre presente, não deixava que passeássemos ao ar livre. O Padro, com suas salas aquecidas era um convite a percorrer seus salões, exposições, quadros.
Chega o dia de partida. Vem uma comitiva de oito pessoas, no aeroporto de Madrid, uma última foto, ainda a guardo com muito carinho.
A epopéia começa: serão quase 5000 KM de um lado ao outro do mundo. Naqueles anos 50 não havia avião capaz de atravessar o Atlântico de uma ponta a outra era necessário fazer escala na África, Dakar. Aterrissamos por lá ás 5:00h da madrugada. Surpresas atrás de surpresas foi a primeira vez que vimos um negro, que sentimos o calor dos trópicos, saímos de Madrid com roupas de inverno, impossíveis de usa-las naquele calor. As reclamações começaram: "Mãe será que essa pessoa não tomou banho?" Desconhecíamos as pessoas de cor.
"Mãe, estou com calor, quero tirar este sobretudo" e assim por diante. Algumas horas depois, o embarque no avião que nos trará à América. Não sem antes passar pelo sofrimento de quase 18h dentro da aeronave.
Que sofrimento durante essas longas e tediosas horas, nada a fazer, não havia lugar para andar, para movimentar-se, para nada.
Finalmente! O alto-falante do avião anuncia: "Atenção, senhores passageiros, em 15 min. Aterrissaremos em Natal. "Bem-vindos ao Brasil". Mal pudemos acreditar no que ouvíamos, "chegamos". Agora encontraremos papai. Doce ilusão. Teríamos que voar de novo até o Rio de Janeiro para encontrá-lo.
A chegada fora às 08:00h, hora de tomar café, a mesa um banquete, bananas, melancias, goiabas, frutas tropicais em abundância. "Como se come?" Eram totalmente desconhecidas, Terrível dilema. Deixamos Natal apenas tomando uma xícara de café. A ansiedade aumenta: "Quanto falta para chegar ao Rio de Janeiro?" Esse vôo curto, para nós torna-se mais longo que a travessia do atlântico.
Enfim, a aterrissagem. O encontro com papai fez-nos esquecer todas as peripécias vividas, a alegria de encontra-lo de novo fora imensa. A chegada foi em um dia chuvoso, deixamos de ver o cartão postal "O Cristo Redentor". Passar-se-iam mais de cinco décadas para que pudesse vê-lo em sua imponência, de braços abertos, abençoando todos os que aqui vem para contribuir com sua parcela de trabalho para o engrandecimento deste Brasil generoso.
"Fim de viagem?" perguntamos ansiosos, "não", responde um pai com voz cálida, ainda deveremos viajar muito até Curitiba. Surpresa: "O que é Curitiba?" perguntamos. A resposta veio logo: "É uma cidade muito boa, é onde iremos morar". Depois de dois dias chuvosos no Rio, nova viagem, de trem e de ônibus.
Foi uma viagem pavorosa. O pó e o calor fizeram um sofrimento atroz nossa chegada ao nosso novo lar. Lembro como se fora ontem: Nosso primeiro pisar nesta Curitiba foi em 28/11/1951, as 19:00 h em frente a Catedral Metropolitana.
Nosso calvário parecia terminado, havíamos chegado a nosso novo lar. Terminara? Não. Nossas malas com toda a roupa, bens perdera-se nessa viagem. As malas haviam sido endereçadas ao "Paraná" e fora, parar no "Panamá", mais dificuldades, sem nada de nosso.
Enfrentamos um verão só com roupas de lã. Nada que nos desanimasse. Quem imigra não olha as dificuldades, as maiores ficaram para trás.
A primeira preocupação de meus pais foi com a escola, sua primeira providencia foi matricular-nos para que estudássemos.
"Uma família que não estuda não progride" este foi incentivo que sempre tivemos. Nossas dificuldades acredito, não devem diferir muito daqueles que como nós viemos.
Quantas dificuldades passamos. Eu e meus irmãos, o estudo sempre fora o escopo perseguido por eles.
Hoje, quase seis décadas após olho ao meu redor. Papai e mamãe repousam no solo deste novo lar. Deus os Chamou não sem antes terem a satisfação de verem cumpridos os objetivos que haviam traçado para nós.
A vida sempre nos leva, aquele menino que queria ser arqueólogo, hoje já está aposentado, foi um projetista na SANEPAR.
Já deixou de trabalhar há quase dez anos, aposentou-se, conta com o apoio da FUSAN. Trinta anos ajudando a SANEPAR a ajudar as gentes paranaenses que tanto me deram. A satisfação é total, consegui, a custa de muito trabalho e estudo preencher os sonhos de meus pais. Hoje tenho mais de sessenta anos, minhas conquistas em todos os campos foram árduas, persegui-as tenazmente como eles queriam, quem agora sente muito a falta deles sou eu, meu consolo é que sempre os poderei visitar, repousam no cemitério. Neste querido Paraná.
Ainda lembro o meu primeiro dia como empregado da SANEPAR, um jovem decidido, o trabalho não o assustava, a vontade de ser útil, dar um retorno, mesmo que pequeno, a um Paraná que o recebeu de braços abertos, a uma SANEPAR que me recebeu com galhardia e respeito, apoiou-me sempre. Quando da criação da FUSAN, não titubeei, abracei a idéia, escrevi-me. Quantas dificuldades para pagar a contribuição, nunca duvidei. Às duas, SANEPAR e FUSAN só tenho a agradecer.
Agora vejo o que conquistei, uma família maravilhosa, uma situação confortável, uma terceira idade como jamais poderia imaginar cinqüenta anos atrás.